Interesse no estudo da Antiguidade Greco-Romana cresce no país apesar de desafios

Parthenon, Acrópole de Atenas, 03/07/2018. Foto: Julia Novaes


Área de pouca expressão no país, a cultura clássica greco-latina, o estudo da história, filosofia, língua e arte da Grécia e Roma antigas, está em crescimento, de acordo com o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas (PPGLC) da UFRJ, Ricardo de Souza Nogueira. Segundo ele, houve um aumento substancial de matriculados no PPGLC em menos de uma década, de nove alunos em 2010 a 52 em 2017 e 48 este ano. 

Nogueira atribui isto, em parte, à criação de uma terceira linha de pesquisa, interdisciplinar, que permite extrapolar os limites da língua e literatura grega ou latina. Apesar do crescimento, o campo de cultura clássica e seu pesquisador  encontram alguns desafios, como a prática ausência de contato com o assunto até o ensino superior – ao qual limitada parcela da população chega –, as dificuldades de financiamento da pesquisa acadêmica, e a distância. 

– No Brasil e também em toda a América Latina, estamos longe de onde nossos objetos de pesquisa se encontram, e o pouco que temos, pega fogo, como no lamentável incêndio do Museu Nacional. Quando fui ao British Museum, em Londres, e ao Museu de Pérgamo, na Alemanha, vi realmente o que seria viver ao lado de objetos oriundos de culturas que tanto os helenistas quanto os latinistas amam – afirma Nogueira.

Fórum Romano, em Roma, visto da Rupe Tarpea, 29/06/2018. Foto: Julia Novaes

Para Felipe Marques, formado em Comunicação Social pela PUC-Rio, e hoje mestrando em Letras Clássicas na UFRJ, a principal dificuldade é a falta de financiamento para pesquisa. Ela afeta não só as condições de vida do estudante, devido a bolsas de valor insuficiente, como impacta as possibilidades de internacionalização da produção acadêmica brasileira, que pode oferecer perspectivas originais. Além da escassez de livros especializados nas bibliotecas, a dificuldade de acesso à produção internacional compromete a qualidade da pesquisa.

– Os livros e artigos são muito caros, e uma pesquisa com o mínimo de relevância científica precisa estar ciente dos estudos mais recentes, e nesse sentido não há como ignorar a produção internacional. Precisamos publicar em língua estrangeira e sermos lidos e comentados lá fora, sem abrir mão da maneira original como lemos os clássicos. 

Outro desafio é a difusão das clássicas para além do meio universitário, o que poderia despertar o interesse de futuros helenistas e latinistas. Desde que o ensino do latim deixou de ser obrigatório, a cultura clássica tem presença inexpressiva na educação básica. Para Nogueira, isso ocorre a despeito da importância que esse conhecimento desempenha para a compreensão da nossa cultura ocidental.

– Costumo dizer para meus alunos que a cultura clássica não pertence aos gregos da atualidade ou aos italianos – pertence, na verdade, a todos nós, pois é patrimônio da humanidade. Na Alemanha, há disciplinas de língua grega e latina nas escolas, e olha que o alemão nem veio do latim [nem tem forte influência grega]como o português – ele exemplifica. 

Existem tentativas de melhor divulgar o passado antigo para a população. Uma bem-sucedida é “Os Clássicos no Acervo de obras raras da Biblioteca Nacional”, um projeto de extensão coordenado pelo professor da UFRJ Fábio Frohwein, e que visa a classificação de obras raras em grego e latim da instituição. Além disso, funcionários da Biblioteca recebem aulas instrumentais nessas línguas para catalogar melhor tais elementos do acervo. 

Outra possibilidade de divulgação é o Curso de Línguas Aberto à Comunidade (CLAC) da Faculdade de Letras da UFRJ, que oferece cursos de vários idiomas, inclusive grego e latim. De acordo com a secretaria do projeto de extensão, o número de alunos matriculados em turmas dessas línguas se manteve relativamente estável ao longo dos últimos cinco semestres, distribuídos, em média, em 7,4 turmas de níveis I a VI.  







Como é possível perceber nos gráficos acima, a língua grega tem um pouco mais de apelo que o latim. Na percepção da latinista Miriam Sutter, professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, esse fenômeno é explicado pelo maior sentimento de descoberta que o estudo do grego traz. Enquanto o latim e seu alfabeto são facilmente reconhecidos pelo falante de língua portuguesa, o grego é, na prática, totalmente desconhecido. 

Aula de Grego I na PUC-Rio com o professor Antonio Mattoso, 19/09/2018. Foto: Julia Novaes

De acordo com outro docente da PUC-Rio, o professor Antonio Mattoso, a cultura grega é muito mais estudada que a latina na Universidade. Este período, ele se surpreendeu com o fato de a turma de Grego I estar com 30 alunos, o máximo de matriculados possível, a maioria deles do Departamento de Letras. No entanto, o professor questiona se essa situação decorre de um real interesse por parte dos alunos ou se, por causa do horário em que é ministrada, a disciplina é escolhida para completar a grade curricular. 

Nesse sentido, Mattoso considera que um dos maiores desafios do professor de cultura clássica é tornar o conteúdo mais atraente aos jovens. Com relação ao ensino da língua, ele acredita que o método particular que criou é bem-sucedido, uma vez que, além de receber feedbackpositivo dos alunos, conseguiu inspirar quatro deles a se dedicar ao estudo da cultura clássica, dentre eles Felipe Marques (e a autora desta reportagem). 

– O professor deve ter em mente a turma para que ele está dando aula. Pelo que sei, no Rio, há uma uniformização, a qual sou contra, no estudo de grego pelo “Reading Greek”, um método concebido para falantes de língua inglesa, que não é igual a uma língua neolatina [como o português]. Eu uso a filologia, a linguística, para tornar aquele conteúdo vivo. Sou como Platão, “todos os métodos me interessam”.

Aula de Grego I na PUC-Rio com o professor Antonio Mattoso, 19/09/2018. Foto: Julia Novaes

A PUC-Rio pode também pode ser considerada outro ambiente de transmissão da cultura clássica. Segundo Mattoso, como em todo Brasil, a instituição não oferece Letras Clássicas como curso de graduação, mas algumas disciplinas de letras, história e filosofia foram agrupadas pelo departamento de Letras para formar o domínio adicional em cultura clássica greco-latina, um tipo de curso de complementação de estudos aberto a todos os alunos. 

Sutter explica que essa é uma oportunidade importante, pois o conhecimento das clássicas é necessário, já que ainda nos influencia e serviu de base para a construção das ciências contemporâneas. De forma semelhante, Mattoso ressalta que a intertextualidade com os clássicos sempre guiou o pensamento ocidental, desde o poeta helenístico Calímaco, no século III a.C., ao filósofo Heidegger e o cineasta Woody Allen no século XX. 

– Todos os filósofos contemporâneos, em algum momento da sua obra, pararam na Grécia, pensaram os gregos de alguma forma. O mundo não começou na modernidade. Esse é o diálogo interessante que existe em estudar a cultura clássica. Não como um mero símbolo de uma erudição empoeirada, mas como um real instrumento para entendermos nosso mundo hoje.

Em reconhecimento dessa pluralidade de influências, o mestrando Marques escolheu a cultura clássica porque o campo lhe ofereceu a possibilidade de unir seus interesses em história, filosofia, línguas e literatura. 

– Os estudos clássicos me permitem estudar um pouco de todas essas áreas, o que é incomum em estudos contemporâneos, que tendem a prezar por uma maior especialização. Há, como diria Calvino, o eterno grau de atualidade das obras clássicas. No meu caso, acho que elas funcionam como um espelho em que eu consigo enxergar melhor a mim mesmo através dos gregos. 

Para além do interesse individual, é possível que o ressurgimento do interesse no estudo da cultura clássica greco-latina seja uma reação à velocidade e mutação constante do mundo contemporâneo e das relações sociais. É o que pensa Sutter. 

– Mal assimilamos uma coisa, no dia seguinte já está diferente. A mente é levada a pensar sempre adiante, e não pensar lá atrás. Se é inconsciente eu não sei, mas eu acho que de alguma forma há uma necessidade dos jovens de retomar uma base, o começo de tudo. Um desejo, de repente, de estudar algo que não esteja mudando constantemente. 

Comentários

  1. Nao sabia que rolava aula de grego na Puc. E parabens pelas fotos!

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    1. Rola sim! De grego antigo em letras em de grego koiné em teologia. E obrigada!!

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  2. Excelente matéria, Julia! Texto muito claro, conteúdo super acessível e - o melhor de tudo - entrevistados que sabem do que estão falando. Nota 1000!

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