Somos todas Cassandra

Ajax arrastando Cassandra. Skyphos do século IV a.C. 
É comum que eu insira a seguinte frase em conversas do dia-a-dia: "como eu sempre digo, os gregos já sabiam de tudo". Isso porque, por exemplo, acredito que é possível aplicar a tal "moderação", uma das tradicionais virtudes gregas, a todas as questões da vida - nada em excesso, nem nas dietas, nem nos posicionamentos políticos. Os mitos gregos, também, podem nos ensinar bastante, já que falam das angústias mais fundamentais dos seres humanos e da vida em sociedade. Basta pensar em Édipo, que, guardadas as devidas proporções da sua extraordinária condição incestuosa e patricida, passou pelo familiar desespero da negação, ou, "eu sei que eu sei, mas continuo fingindo não saber". Na sua mais reduzida esfera, esse sentimento se aplica a qualquer universitário procrastinador.

Pensando nisso, outro dia me veio a infeliz constatação de que a história de Cassandra, a profetisa troiana, já nos tempos míticos exemplificava o drama que muitas mulheres ainda vivem hoje: a violência sexual e a falta de credibilidade. Mais especificamente, mulheres que são assediadas sexualmente ou estupradas e têm que lidar, por cima de tudo, com a dúvida dos outros. Será que ela está mentindo? Será que ela não mereceu? Será que ela não estava pedindo? 

Vamos ao mito:




Cassandra era filha dos reis de Tróia, Príamo e Hécuba, os mesmos que enfrentaram a guerra contra os gregos na Ilíada, de Homero. Uma das variantes do mito relata que o deus Apolo, apaixonado por ela, ofereceu-lhe o dom da profecia desde que ela se entregasse a ele. A princípio, ela aceitou as condições e recebeu os poderes, mas acabou recusando cumprir sua parte. Como castigo, o deus, furioso, cuspiu na boca de Cassandra e a amaldiçoou - dali para frente, ela sempre prenunciaria a verdade, mas ninguém nunca acreditaria nela. (Mas será que a culpa não foi dela? Quem mandou fazer promessas que não pretendia cumprir?). Outro episódio conta que, quando os gregos invadiram Tróia para destruir tudo e todos, Cassandra buscou refúgio no templo da deusa Atená. Lá, foi encontrada pelo guerreiro grego Ajax, que a estuprou brutalmente. (Mas o que ela estava fazendo lá, sozinha, no meio de uma batalha? Não sabia que soldados são estupradores?).



Ajax e Cassandra. Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, 1806.

Note a atualidade: o caso mais recente de assédio que viralizou na Internet foi o da cantora Ariana Grande, que cantou no funeral de Aretha Franklin e foi assediada pelo pastor que ministrava a cerimônia. A resposta de parte dos usuários foi atribuir cinicamente culpa ao comprimento do vestido da cantora. 

Imagem: Twitter

Sabe-se lá quantos séculos depois que estas versões do mito de Cassandra foram pela primeira vez contadas, Ésquilo, na tragédia Agamêmnon, ofereceu mais detalhes, descrevendo uma situação que nos deixa com pena dela e com raiva da inércia dos seus interlocutores. Depois que os gregos venceram a guerra contra Tróia, o rei Agamêmnon levou Cassandra consigo como noiva-capturada para Argos, seu reino no Peloponeso. Lá os aguardava Clitemnestra, esposa de Agamêmnon, que planejava matá-lo dentro do palácio. Deixada do lado de fora, Cassandra narrou aos anciães da cidade, como e porquê o rei seria assassinado e depois ela também. Não poderia ter sido mais clara, como atestam os versos 1246-1254:

Cassandra: Afirmo-te que vais assistir com teus olhos à morte de Agamêmnon. 
Corifeu: Desgraçada! Adormece a boca para melhores augúrios.
Cassandra: Não há remédio possível para as palavras que proferi. 
Corifeu: Sim, se devem vir a realizar-se... Mas que os deuses não permitam.
Cassandra: Bem podes fazer votos - eles, meditam no assassínio. 
Corifeu: Mas quem prepara esse crime?
Cassandra: Como andas tão ao largo do sentido dos meus oráculos!...
Corifeu: Não entendo como se haveria de perpetrar o crime. 
Cassandra: E contudo eu falo perfeitamente a língua da Grécia! 
(Ésquilo. 1966. Agamêmnon. In: Oresteia, trilogia dramática. tr. Souza, J. A. de, S. J. Braga: Livraria Cruz. Tradução editada por mim para fins de clareza.)

Apesar de, mais cedo na peça, os velhos senhores terem discutido o coletivo mau pressentimento de que algo terrível aconteceria, eles se recusam a fazer qualquer esforço para que as palavras de Cassandra fossem decifradas.  Encolhidos, medrosos de tirarem as óbvias conclusões, preferiram a inação. Compreensivelmente frustrada, ela então entrou no palácio e também foi morta.

Outro caso: sexta-feira, 31 de agosto, a Polícia Civil indiciou um homem pelo estupro da filha de 16 anos e três  familiares por omissão em Juiz de Fora. De acordo com o G1, a vítima contou à PM que sofria abusos há pelo menos 10 anos, e que pediu ajuda de parentes, que não acreditaram nela. A situação se resolveu porque mães de amigas da menina denunciaram os abusos. 

O mito nos atinge pela familiaridade. Em tempos de redes sociais e hashtags como #meuprimeiroassédio e o movimento #MeToo, mulheres conseguirem encontrar uma audiência mais receptiva às suas verdades que o coro de velhos senhores de Argos. Mas nem sempre essa esperança virtual chega às mais vulneráveis. Penso que são essas meninas e mulheres que se beneficiariam caso a história  mais presente no nosso imaginário coletivo fosse a de Cassandra, e não a do menino que gritava "lobo!"

Comentários

  1. Eu nunca tinha pensado nesse paralelo, mas faz muito sentido. Gostei muito do texto!

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  2. mais relevante impossível! é interessante mostrar como nada, mesmo tanto tempo depois, mudou.

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  3. O patriarcado talvez seja tão antigo quanto a própria noção que temos de sociedade, mas o triste é ver que pouca coisa mudou. Ele se perpetua e se regenera em qualquer situação, deixando várias Cassandras pelo caminho. Será que minha tataraneta vai viver em uma sociedade igualitária? Acho que não, mas espero que sim.

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    1. Assim também espero... Caminhemos sempre juntas e em frente!

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  4. Um texto genial sobre um tema muito interessante e uma realidade infeliz.

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  5. Apesar de achar triste e desesperançoso demais que temos que falar sempre as mesmas coisas, sobre os mesmos assuntos visto que a cultura do estupro ainda é forte na nossa sociedade, textos como esse são expressamente necessarios para gerar o debate e elucidar quem ainda tem alguma dúvida sobre o que nos, mulheres, passamos dia apos dia em nossas vidas. Gostei muito do texto, amiga! Juntas sempre ♀️

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  6. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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  7. Fiquei arrepiada lendo esse texto. Acho que análises comparativas como esta que permeiam o que é ser mulher em uma sociedade patriarcal são extremamente importantes para que sejamos mais compreensíveis com a realidade e expectativas que temos sobre o papel da mulher. Lembrei muito de um caso que foi estudado em uma das minhas aulas de Direito e Gênero, em que o machismo existente no sistema judiciário e em nossa sociedade se mostrou presente: o caso de Tatiane, que ao voltar para casa após trabalhar para pôr a janta na mesa encontrou seu bebê praticamente morto pelas mãos do marido agressor. Tatiane foi considerada responsável pelo o que aconteceu pelo simples fato de que era mãe e portanto deveria ter ficado ao lado do filho, deveria ter se afastado do marido violento, deveria ter protegido a si mesmo (você pode encontrar mais informações sobre o caso no seguinte link: https://www.google.com.br/amp/s/www.sul21.com.br/colunas/marcelli-cipriani/2017/10/o-caso-de-tatiane-mulher-cujo-marido-matou-seu-filho-e-esta-presa-por-isso/amp/ )

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    1. Caramba, que horror... não conhecia a história. Me dá muita raiva que temos viver com medo desse tipo de coisa.

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  8. Precisamos trazer os mitos para o agora. Ajudar a contextualizar o presente.

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